chamam-me os teus olhos
castanhos enormes de menino
porque sempre me tens teu norte
nascente expoente máximo e sorte
magnas estrelas
pronúncios de constância
poema azul, brando anil
matiz tão minha
de um jusante nascido
o enaltecido, reguila de retoiças
que nunca bastam, Salvador, cem não
criador de sentimentos
em mim fundidos
a quem um beijo não chega
a quem muitos são poucos
como foram até hoje
maresca veio aquela brisa
contida de uma inveja,
tal, pecado seria,
uma trambolhada mensagem
na laranjeira perfumada
um cheiro de primavera
um sorriso infinito
quem melhor traria?
ainda hoje te vi
tanto tempo no
meu tempo para ti
quase tanto como o restante
digo-te que muito
como uma loucura
que ainda não consegui dizer
e usei o teu nome
que não escrevo que não esqueço
ouvinte do vazio da noite
tão improvável que começa com a aurora
uma das vertentes
do sucesso, é exercida
por grandes homens
a outra pela sorte
que protege, os outros, os audazes
ainda que vertido
esse rio, com margens quase perfeitas
corre como os cavalos pujantes
até ao primórdio da liberdade.
Os grandes Homens são livres
movem o poder dos oceanos
são pregão sábio aos peixes
e vezes ínfimas de silêncio
entre os silêncios de toda a vida
quando pede a emoção, porque estes também sentem
existo em ti
sou de ti
tantas danças e matizes
que não me descreves no arco-íris
quando sorva o céu do mar
em todo o redor
existes como ousadia
em tudo mesmo ausente
sinto-te o cheiro
e a voz cansada
enquanto fazes gemida a cantiga
pela tarde parada de domingo
com o cheiro a graxa
dos junquilhos no terreiro
enquanto se faz outra segunda-feira amanhã
tantos são os poetas
que não se servem do papel
para retractar passagens e pensamentos
com pinceladas de palavras
despidas como as mulheres de Lautrec
chilreiam aos ouvidos, esses poetas,
sussurros e segredos sem espada,
como os pintassilgos “bonitinhos”
com os olhos frios cheios de nada
quando corre morno o vento de primavera
e frágil fica o ramo
mesmo verde e tenro
como o grito imenso inaudível
que quando se esbate
não passa de palavra riscada
sobreposta, pelo pincel
que não pensa
pelo poeta que não admite
esta como vaga certa do poema
por isso chilreia qualquer coisa parecida também com nada
tantas vezes
te tentei
mas, silva, não sufoques
que te abraças
ao que de mim atinges
mas, silva não sou
embeveces-me tal
que não tenho letra para fado
e fazes-me jorrar uma insónia
na noite mesmo ao teu lado
fazes que uma chuva
cometa um pranto em mim
porque não faço existir
um possível poema
em que não me permito
rima nem nexo no verso
embeveces-me tal
que em mim o caminho acaba
quando emerges reflexa no espelho
da água vertida e espezinhada
onde me diluo num adeus
por desistir do mundo como asas
e beber o que consinto de ti
uma incerteza, tu que hoje já me beijaste
virão outros ventos que te levem
todas as pétalas do ginjeiral
virão aqueles que te transportam
onde não há horizontes
muito além do côa
que o inverno abandonou,
e que o teu perfume inunda
e dá vida aos peixes sufocados
virão em ti perder-se,
os meus medos obtusos
no teu branco tão impuro,
que ladeias o caminho
vazio de peregrinos e de causas
onde nem o pasto resistiu à silva
onde nem resisti à tentação de te cheirar
enquanto não vêm ventos nem outros tempos
Algodres, 08 de Abril de 2012
Feliz Aniversário
E o tempo insiste na demora.
. espessialíssimos