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versejos livres

versejos livres

29
Abr07

já partiram

Lino Costa

Fantasmas. Sim, uns infinitos monstros que me perseguiram e senti que sim, uma intuição, uma solidão extrema e sem sentido, uma real interrogação sem um nexo qualquer.

 

Não me senti assim em dia algum. Cresceram-me questões existenciais e meridionais ao meu mundo. Só não me preparei para uma perda, uma ida definitiva…

 

Não me venho lamentar nem apresentar um momento, venho sim dizer que já me sinto livre novamente, que esses fantasmas sonantes, que me fizeram abraçar venenos, partiram para outra paragem e libertaram-me de pesadelos.

Deixei de ter assoalhadas desertas e já estou na tal estrada que caminha para um fim mas que o meu está tão longe. Vou viver, tenho muito para viver, temos muito para viver…

23
Abr07

QUEM ME LEVA OS MEUS FANTASMAS

Lino Costa

Aquele era o tempo
Em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam,
Eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos.
Marinheiros perdidos em portos distantes,
Em bares escondidos,
Em sonhos gigantes.
E a cidade vazia,
Da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto.

 

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

 

Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.

 

Quem leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

 

De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?

 

Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?

Pedro Abrunhosa

20
Abr07

tempo

Lino Costa

Tenho a dizer que tempo tem a vida, o usufruto da minha alma. Deixei um sentido, algures esvaído, porque não me ocorre poesia.

Não me ocorrem palavras, nem quadras tentadas.

 

Sinto-me numa morte lenta, numa ida que não consigo retroceder. A minha morte, não é igual às outras, a minha morte morre comigo.

 

Num redondo de interrogações, que me esqueci de não esquecer, e que não as quero desvendar. O tal sentido, que lá vai, perdeu-se por Lisboa, cidade dos desencontros. Morro, sem saber e sigo, já só tenho uma vida que desconheço e aquele rosto que sempre me sorri.

20
Abr07

a raça

Lino Costa

a mais vasta crença

a mais gasta e tensa

verdade, que não alcanço.

este frenesim de fragrâncias

essa mentira contradita

que incandesce o gelo apaziguado

e refloresce a razão do não crer

 

a verdade, um dedo apontado

um riso seco

sem mais explicação conversão

a única e a primeira

o arquivo, o conceito canonizado

a mais lógica ciência do existir

 

mas morro mais um pouco

mais um tanto de quase nada

com um broto inacessível nos bicos estriados

do diedro mental

morro com a mensagem cromática

com as soluções ocultas por entrelinhas

sinto-me uma verdade desmentida

 

falsidade, espelho alençolado

emoldurado em pau de videira

no fundo da mente, tão estimado

uma verdade desleal, celestial

tão contida nos primórdios principais

mentira, não te quero mais comigo verdade

19
Abr07

Desci Agora II (continuação em prosa)

Lino Costa

Por descer, concluí que deveria subir na ladeira e na remoção de poeiras que preenchem a tampa do meu baú de recordações.

Se bem se lembram falei-vos do Feiticeiro, um velho homem de olho azul que adorava cobiçar o decote da mulher do Failita. Essa mulher era e acho eu que continue a ser bonita, e era certo que fizesse chuva ou sol um decote bem arrojado ou uma transparência sempre fizeram parte das vestimentas dessa senhora. O certo é que nunca vos referi que o Feiticeiro era viúvo de Catarina do Telhados, se não fosse o meu irmão, Vítor, meu mano velho, a lembrar-me que a Catarina não ia achar muita piada nessa andança de olhares “rebarbados” por parte do Feiticeiro.


A Catarina do Telhados sempre, desde que me lembro, se apresentou de lenço na cabeça amarrado com dois nós no queixo. Sempre me assustou muito aquela figura, de andar desengonçado e com as pálpebras inevitavelmente anémicas, por uma causa muito comum no seio feminino madeirense de há quinze anos atrás, o vinho era uma constante para muitas mulheres e este era um caso de consumo diário e de certa embriaguez. Catarina tinha uma voz grosseira e era bruta no gesto, mas nunca ofendeu ninguém, nem mesmo regada em excessos. Asseguro-vos, que esta mulher era assumidamente alcoólica perante a sociedade mesquinha que normalmente circulava naquele conjunto de lugarejos, ao contrário de alguns casos omitidos e camuflados com reflexos de aparência e falsa postura, um conheci bem de perto infelizmente.

Mano velho, lembras-te ainda do Joel o artista da “unhinha” comprida, para limpara a orelha, que “acabou” atropelado ao sair do beco depois da casa do César, o veterinário. Esse artista uma vez embrenhou-se à unhada, pareciam gatos, com o feiticeiro. Coitado do Joel. Coitado do José Manuel, que acabou enlouquecido e que agora percorre as veredas e as ladeiras com um rádio de bolso a falar sozinho, sem saber que existe, e que se arrasta com aquele subsídio de invalidez mísero. Lá vão os tempos que aquele pátio da mercearia tinha duas rodas de “molhada” para pagar a rodada na tasca.

No fim lá foi o Eduardo Saldanha o magnata do “Fiat Tipo” a meio caminho do José e do João. Do Senhor Soares o dono do papagaio que tantas vezes pedi para dizer palavrões

O João do Vinho Seco era o “alombador”, tal como o Arlindo e por fim o José da Gaita, o pai, não o filho, o marido da Isabel dos Cagados, Mãe da Bela que casou com o Mário Moreno, da Paizita, do José marido da Eugénea, e do César e da Rafaela, esse rapariga que teve um episódio interessante no terreiro da minha mãe, num bidon ferrugento onde plantavamos pés de arruda e cravos, nem me quero lembrar do acontecido, que arrepio, a minha irmã lembra-se de certeza ela estava em cima do acontecimento, porra. Quando me convidavam para assistir às patuscadas e às sessões de punhetas da rapaziada mais velha ao fundo da ribeira do Caminho do Terço o César dos Cágados bebia sempre a água das salsichas, quer houvesse ou não punheta… cómico, talvez, mas seguramente acontecido. Coitada da Rafaela, meu Deus.

Tenho tanto para vos dizer e acho que vou propor ao meu irmão que me reavive e que partilhe comigo as coisas que não me lembro e que ele nunca esqueceu. Mano o que achas de colaborar? Não acredito que me digas que não.

O “alombador” era o Homem que “alombava” com as garrafas de gás e os cestos de compras que as pessoas pediam ao fim de semana e aos fins de mês garantidamente.

Nem sei mais o que vos dizer, vou prometo que vou contar a história de cada uma desta personagens e um dia quem sabe conto a minha… desculpem-me ser tão vago.

Atentamente

da Silva Costa

09
Abr07

sarna

Lino Costa

boca suja
de carranca falsa
com sorriso e dente branco
de filho da puta que morde

mão de menino
imunda de punheta
que nem sei
mas será rabeta?
de corpo e cabeça
que não diz
com franqueza
o mal que lhe fiz

boca de sarro
da cabeça de um chibarro
de sonso e traidor.
de duas vezes sonso

que nada traz
à verdade que lhe guardo
vou pra ser bandalho
vou mandá-lo pró caralho
e às coisas que guardo, tem muito
a aquele pai maldoso
ao filho mandado
e ao espírito santo que os lambe

razão. sem sentido
de voz muda rastilhada
vou atirar a granada
vem aí revolução

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