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versejos livres

versejos livres

30
Mai08

...

Lino Costa

ele é o poeta

das coisas todas infinitas
e das vezes que se fundiu
nas alquimias longas
da viagem que não cessa
 
como o subir íngreme
de um monte alto
e o rebolar até ao vale
no feno macio primaveril
contra a gravidade do tempo
 
que vai ao contrario dos regressos
adiados ele é o orador
dos abismos à luz do sol
calculável de sete dias
da cada vez tão pouco
 
tão fincada tão intensa
ele é a vez de cada palavra
e a sensatez de todos os versos
com estrofes nulas e neutras
a poetisar cada uma das suas vidas
30
Mai08

...

Lino Costa

cresceu mais

e não me disse
vai comer quase tudo
e talvez dizer-me
que agora é um sorriso constante
 
perdi tanto do que foi
com uma distância impensável
pouco ou nada premeditada
mas que formou uma onda maior
 
entre metades do conjunto
que seriam as marés mais lentas
ele deu-me risos
e promessas com os olhos leves
tão ternos como os meus transmissíveis
 
e este poema será criança
e nós crianças também
pequenino e inocente
mas uma verdade e uma inconsciente
28
Mai08

dizer

Lino Costa

vou dizer uma metade

do que te amo aos astros
e vou formar uma chuva de estrelas
ao longe e direi ao mar
 
que seja brando e uma açude
e os peixes terão danças
por cima das ondas lentas
como carrosséis pintados
por sorrisos tão longos distantes dos medos
 
existirá um meandro de sonho
quase perfeito desenhado na areia
da praia lavado pela maré da madrugada
e levado ao cume das dunas inquietas
absorvido p’los magmas da terra
 
mas dizer digo-te a ti
porque os mares são ecos
e os rios descem, e os peixes não dançam, são
digo que te amo no beijo à noite
28
Mai08

os gritos atravessaram

Lino Costa

os gritos atravessaram

penados surdos a rua escuridão
e cheirei porque vi a noite
e o principio das estrelas
 
e as flores nos varandins
e as casas levedas e o silêncio quente
com o sentimento dormente no coração
que interrompia os traços cadentes
e todas as formas curvas de travessa
 
reencarnado por tantos beijos
como uma espuma de ondas rebentadas
num penedo que as vê desfeitas num ir leve
à luz ao momento desigual frágil
 
que se abre com uma chave que tinha na mão
cifra de todos os portais de um outro Olimpo meu
que tem os tudos e os nadas e os quases
depois de todos os incontáveis princípios do infinito
e que sabe dos distos fins de toda a razão
 
sou eu o prosador de poemas
estou escrito no livro das vagas legíveis
à luz de uma história tão lunar
que será longa enquanto for noite e eu quiser
28
Mai08

vou ao Alentejo

Lino Costa

vou ao Alentejo

não te levo comigo
não posso ficar contigo
adormeço parte de mim à partida
e não levo as asas brancas
 
vou com o passo vulgar
dos homens que nunca voaram
até à vastidão dos sonhos
que vivem num confim limitado
do saber tão vasto e por descobrir
 
tenho um retrato teu rasgado
colado no meu peito arrefecido
enquanto bebo desta agua
com um sabor disperso venho domingo
almoçamos os dois espero que chova
28
Mai08

mil poemas

Lino Costa

mil poemas

directos e indirectos (in)discretos
com um verbo de outros verbos
silábicos e terminais
mas nenhum é o sangue
nem um verbo sangue
porque é das pessoas
eu sangro
tu sangraste
ele sangraria
todo o seu sangue nos homens
que verbo tão envolvente
e permanente como os rios
dos jusantes iminentes
que nunca morrem
são a corrente das conciliações
tão intermitentes o perigo
porque o verter é encarnado
e o que corre é a contradição
de um fim com o presente do futuro
tão perto ou o passado que vai ali
um ribeiro de tempos e de unguentos
num leito de mar uma curva
constante pra banhos em águas repetidas
como uma faca ou um golpe de lança
uma dor jorrada uma força. Nós sangraremos. Todos
18
Mai08

pedaços teus

Lino Costa

dizes como mel

que temos pedaços
de nós em cada um
e esse será o nosso repetente
casamento das duas nossas vidas
lapidadas d’um bruto diamante
com a preciosidade escondida
 
dizes sem fel
com o tom sereno
p’la noite de Lisboa tão pura
que me amas digo que te amo
que é mais e agora
do que nunca foi
um sumário do principio novo
 
que adiamos tanto tempo
como estes vinte um versos
em três tão juntos diluídos
como num rio de flores de cores perfumes
de sorrisos reunidos ultrapassados
serão reflexos tão exemplos
que agora dizemos somos tudo de novo
18
Mai08

lisboa e a aurora

Lino Costa

lisboa menina aurora

e filha de pai solteiro
o sol seu guitarrista
no revirado de uma viela esquecida
lisboa menina aurora
e filha de mulher da vida
boémia da noite lua
olhada por mil e a inveja
de todas as mulheres do desdito
lisboa aurora sem encanto
com os seus olhos vendados
pelo ciúme da neblina e p’la mentira
tão extensa e frígida
lisboa é a mentira e a aurora
é o quase da nobreza real
com pó do arroz e decotes e seios
e cabeleiras bengalas
sapatos de língua comprida
lisboa sem aurora e esquecida
que teu pai vai preso
e tua mãe é mulher das dadas
que não sabem quem te toma
que seja o Tejo
mesmo velho mesmo apodrecido
18
Mai08

três pôr-do-sol

Lino Costa

pra sentir tudo

um casamento um choro
um bolo e uma missa longa
uma verdade em tantas mentiras
e realidades invisíveis
e três pôr-do-sol
e tantas despedidas ausências
espelhos rachados e bebedeiras
e carreiras interrompidas
ou quase nada que persiste
que consiste e existe
nas ruas a alegria e pureza
ou a figura do pasteleiro
não esqueço, não sei nada
quantas mortes existiram
na ausência tão longa
e quantos passaram a ser velhos
quantos nasceram não sei nada
não vi morreram com mortes
nasceram com nenhumas certezas
que hoje a capela pode acender-se
por um novo velho um velho novo
por um nascimento branco
ou para as pessoas de um verbo
porque não o viver
18
Mai08

o cego do largo

Lino Costa

ainda não deixei de ouvir

o cego e o acordeão
e os sorrisos da florista
e o sino, a cada quarto, da sé
neste dia de sol
e a cidade está vazia
não há rama de nabo em dia de mercado
nem casas de doçarias pejadas
acho que não há nada aqui
e o cego ainda não sabe
insiste na cantoria
e na caixa vazia
e no fole quase rasgado
aqui deixou de haver quase tudo

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